Pessoalmente | O que fica em nós
1421
post-template-default,single,single-post,postid-1421,single-format-standard,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-title-hidden,qode_grid_1300,footer_responsive_adv,qode-child-theme-ver-1.0.0,qode-theme-ver-16.7,qode-theme-bridge,wpb-js-composer js-comp-ver-5.5.2,vc_responsive

O que fica em nós

Sobre luto, culpa, amor e aquilo que permanece depois de uma morte por suicídio

 

Setembro, mês da prevenção do suicídio

Há perdas que deixam perguntas.

E há perdas que parecem transformar as perguntas num lugar onde passamos a viver.

Quando alguém morre por suicídio, quem fica pode regressar centenas de vezes às últimas conversas.

À última mensagem.

À discussão que tiveram.

Ao convite que não fez.

À pergunta que não soube fazer.

Àquele momento que, visto agora de trás para a frente, parece subitamente óbvio.

“Como é que eu não percebi?”

“Porque é que não fiz mais?”

“Porque é que não cheguei mais cedo?”

“E se eu tivesse feito alguma coisa diferente?”

A culpa encontra muito facilmente um lugar dentro de quem fica.

Talvez porque, depois de conhecermos o fim, o passado inteiro parece reorganizar-se à volta dele.

Aquilo que antes podia ter parecido banal torna-se um sinal.

Aquilo que era ambíguo parece evidente.

Uma frase ganha outro significado.

Um silêncio torna-se suspeito.

Uma discussão passa a parecer decisiva.

Uma mensagem a que respondemos mais tarde transforma-se num momento ao qual regressamos vezes sem conta.

Mas olhar para trás sabendo o que aconteceu não é o mesmo que estar naquele momento sem conhecer o desfecho.

Não tínhamos a informação que temos agora.

Não víamos o passado com os olhos que temos depois de uma perda.

E talvez isto seja uma das coisas mais difíceis de aceitar.

O amor não nos dá acesso a tudo o que acontece dentro de alguém

Quem ama vê quase sempre razões para a outra pessoa ficar.

Os filhos.

Os amigos.

Os projetos.

As viagens que ainda não aconteceram.

As manhãs.

Os jantares.

Os lugares.

Os concertos.

As pequenas coisas.

Tudo aquilo que ainda poderia ter sido.

E talvez seja precisamente por isso que uma morte por suicídio pode ser tão difícil de compreender.

“Mas ele sabia que nós o amávamos.”

“Ela sabia que os filhos precisavam dela.”

“Porque é que não se agarrou a nós?”

“Porque é que o nosso amor não chegou?”

Talvez não tenha sido uma questão de não existir amor suficiente.

Uma pessoa pode ser profundamente amada e, ainda assim, estar a viver um sofrimento que quem está à sua volta não consegue conhecer por inteiro.

Podemos conhecer alguém há décadas e continuar sem ter acesso a todos os lugares da sua mente.

Podemos estar presentes e não perceber a dimensão daquilo que se passa.

Podemos perguntar e não receber tudo aquilo que a outra pessoa sente.

Podemos tentar ajudar e não conseguir controlar o que acontece depois.

Porque amar alguém não nos torna omniscientes.

Também não nos torna omnipotentes.

Ser profundamente importante na vida de alguém não é o mesmo que ter controlo sobre aquilo que acontece dentro dessa pessoa.

O amor não devia transformar-se numa sentença retrospetiva

Talvez uma das coisas mais cruéis deste luto seja a facilidade com que o amor se transforma numa avaliação do passado.

Se eu tivesse amado melhor.

Perguntado melhor.

Escutado melhor.

Insistido mais.

Percebido mais cedo.

Chegado naquele dia.

Atendido aquele telefonema.

Talvez.

E talvez seja uma palavra terrível quando já não há forma de voltar atrás e testar todas as vidas alternativas que a nossa mente consegue imaginar.

Porque nunca saberemos.

E a mente, perante uma perda desta dimensão, pode passar muito tempo a tentar construir um mundo onde exista uma resposta que permita finalmente compreender o que aconteceu.

Mas um suicídio não cabe numa única conversa.

Não cabe numa discussão.

Não cabe numa relação.

Não cabe numa pessoa que esteve ou não esteve.

Não cabe num momento.

E talvez precisemos de ter muito cuidado para não transformar aquilo que hoje sabemos sobre prevenção numa lista retrospetiva daquilo que alguém “devia ter feito”.

Podemos aprender a perguntar.

Podemos aprender a reconhecer o sofrimento.

Podemos procurar ajuda mais cedo.

Tudo isso importa.

Mas aprender para o futuro não significa condenar o passado.

Aquilo que sabemos depois não é uma medida justa para julgar aquilo que era possível saber antes.

E quem ficou não precisa de transformar o amor que sentia numa prova de que deveria ter conseguido impedir aquilo que aconteceu.

Dentro de quem fica pode existir uma aldeia inteira

O luto raramente chega sozinho.

Muito menos este.

Dentro de quem fica pode existir uma aldeia inteira de partes.

As que têm saudades.

As que estão zangadas.

As que não compreendem.

As que procuram incessantemente uma explicação.

As que repetem as últimas conversas.

As que se culpam.

As que culpam quem morreu.

As que querem proteger essa pessoa até depois da morte.

As que gostariam de apagar determinadas memórias.

As que têm medo de esquecer.

As que querem falar sobre a pessoa todos os dias.

E as que precisam, durante algum tempo, de não ouvir o seu nome.

Pode existir amor e raiva no mesmo lugar.

Saudade e ressentimento.

Compaixão e revolta.

Alívio e culpa pelo alívio.

Ternura e uma raiva imensa por estar aqui sem aquela pessoa.

Nada disto torna o amor menos verdadeiro.

Talvez seja apenas a forma como uma mente tenta sobreviver a alguma coisa que ainda não consegue organizar.

E talvez o luto precise também disto.

De espaço suficiente para que todas estas partes possam existir sem terem de decidir qual delas tem razão.

Nas lágrimas de quem fica cabe muita coisa

Cabe amor.

Cabe raiva.

Cabe culpa.

Cabe saudade.

Cabe impotência.

Cabe frustração.

Cabem perguntas sem resposta.

Cabem palavras que ficaram por dizer.

E aquelas que daríamos tudo para poder voltar atrás e retirar.

Fica aquilo que fizemos.

Aquilo que não fizemos.

Aquilo que imaginamos que poderíamos ter feito de outra maneira.

E fica, sobretudo, a ausência de tudo aquilo que ainda poderia ter sido.

Os aniversários.

As conversas.

As viagens.

As pessoas que aquela pessoa nunca chegou a conhecer.

Os lugares onde imaginávamos que estaria.

As fotografias que nunca serão tiradas.

As versões do futuro que existiam e deixaram subitamente de existir.

O luto é também feito destas vidas que já não acontecerão.

A pessoa deixa de estar. O amor não.

Talvez esta seja uma das experiências mais estranhas e dolorosas da perda.

A pessoa deixa de estar.

O amor não.

Fica um amor que perdeu o lugar onde costumava chegar.

Fica nas rotinas.

Nas fotografias.

Nas histórias que continuamos a contar.

Nas expressões que herdámos sem perceber.

Na vontade quase automática de telefonar.

Nas coisas que ainda queríamos mostrar.

Nos lugares onde, durante um segundo, ainda esperamos encontrar aquela pessoa.

Fica também na versão de nós que só existia naquela relação.

Porque perder alguém é também perder um lugar onde nós próprios existíamos de uma determinada maneira.

É perder quem éramos quando estávamos com aquela pessoa.

E ter de descobrir, dolorosamente, quem somos agora na sua ausência.

Uma vida inteira nunca pode caber na forma como terminou

Talvez uma das coisas que o suicídio faça seja ameaçar ocupar demasiado espaço na história de quem morreu.

A forma da morte pode tornar-se tão grande que começa a engolir tudo aquilo que veio antes.

Mas aquela pessoa foi muito mais do que a maneira como morreu.

Foi aquilo que amou.

Aquilo que criou.

A forma como cuidava.

As coisas que a faziam rir.

As pessoas que tocou.

As histórias que contou.

As pequenas manias.

Os defeitos.

As contradições.

As coisas bonitas.

As difíceis.

Aquilo que só algumas pessoas conheceram.

A forma particular como existia no mundo.

Aos que foram, talvez possamos tentar não os reduzir à forma como morreram.

Porque uma vida inteira nunca pode caber na forma como terminou.

O que fica em nós

Talvez não tenhamos de aprender a viver sem tudo aquilo que aquela pessoa foi.

Há coisas que ficam.

Gestos que aprendemos.

Palavras que ficaram.

Maneiras de olhar.

Receitas.

Músicas.

Lugares.

Expressões.

Histórias.

Valores.

Formas de cuidar.

Partes de quem amámos que passaram também a existir na forma como nós existimos.

Podemos tornar-nos guardiões de algumas dessas coisas.

Podemos levá-las connosco.

Deixá-las tocar outras pessoas.

Dar-lhes novos lugares onde continuar a existir.

Não para impedir o luto.

Não para transformar a perda numa lição.

Não para procurar uma beleza obrigatória numa coisa que pode ter sido profundamente devastadora.

Mas porque aquilo que alguém deixou em nós não desaparece necessariamente quando essa pessoa morre.

E talvez seja isto que fica.

Pequenos pedaços uns dos outros.

Memórias.

Histórias.

Gestos.

Partes.

E amor.

Muito amor.

Um amor que, de repente, perdeu o lugar onde costumava chegar.

E que talvez precise, devagarinho, de encontrar outros lugares onde existir.

Novos rios por onde deixar correr todo o amor que continua cá.

Quem fica também merece ajuda

Quem perde alguém por suicídio não precisa apenas de aprender a viver com a ausência.

Pode precisar de ajuda para atravessar a culpa.

A raiva.

As perguntas.

As imagens.

Aquilo que sabe.

Aquilo que nunca saberá.

O que ficou por dizer.

E aquilo que gostaria desesperadamente de poder desfazer.

Não existe uma maneira certa de fazer este luto.

Nem um prazo.

Nem uma emoção correta.

E pedir ajuda não significa que esteja a fazer mal o luto.

Pode significar apenas que isto é demasiado grande para ter de ser carregado sozinho.

Se este tema lhe tocou de perto

Se perdeu alguém por suicídio e este texto despertou sofrimento intenso, culpa ou pensamentos relacionados com a própria morte, procure apoio.

Se está a pensar em suicídio, sente que pode fazer mal a si próprio ou que pode não conseguir manter-se em segurança, procure ajuda agora.

1411 | Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico

Gratuita e disponível 24 horas por dia.

SNS 24 | 808 24 24 24

Em situação de perigo imediato | 112

 


Margarida Coimbra Marques, Psicoterapeuta na Pessoalmente ®

 Esperemos que tenha gostado e que o tema possa servir reflexões, bem como explorações internas/ externas! Partilhe com (ou identifique no texto) todas as pessoas a quem sinta fazer sentido esta leitura… Comente ou deixe-nos sugestões de tópicos relacionados. Todos os contributos muito bem vindos!