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Outubro Rosa: os vários tempos da recuperação

Depois dos tratamentos, os cuidados continuam…

Outubro Rosa convida-nos a falar sobre o cancro da mama, a importância da detecção precoce e o acesso a cuidados. É também uma oportunidade para olhar para a vida de quem atravessa a doença: as mudanças no corpo, as perguntas que surgem e o apoio necessário ao longo do percurso.

Quando termina uma etapa dos tratamentos, há frequentemente motivos para celebrar. E há! Há mesmo. Mas essa data pode não coincidir com o momento em que a pessoa se sente recuperada. Algumas mudanças continuam presentes, outras exigem adaptação, e o futuro pode ser vivido com uma incerteza que antes parecia distante ou era mesmo inexistente.

Reconhecer esta realidade permite cuidar com maior atenção. Cada pessoa tem uma história, tratamentos e necessidades próprias. Para algumas, o acompanhamento inclui medicação prolongada; para outras, nomeadamente quem vive com doença avançada, os tratamentos continuam a fazer parte da vida.

O cuidado precisa de acompanhar estes diferentes percursos.

A recuperação tem vários tempos

Durante os tratamentos, a vida pode organizar-se em torno de consultas, exames e procedimentos. Há etapas concretas a cumprir e uma equipa que acompanha regularmente o processo. Quando essa rotina termina, começa uma nova adaptação.

O alívio pode coexistir com cansaço, preocupação ou uma sensação de menor segurança perante a diminuição do contacto hospitalar. Também pode haver vontade de retomar rapidamente a vida, de viver tudo o que ficou em standby. Nenhuma destas respostas, por si só, define como a pessoa está a lidar com a desafiante experiência do cancro. 

Podemos pensar num tempo dos tratamentos, num tempo de recuperação do corpo e num tempo de adaptação emocional e social. Estes tempos cruzam-se, várias vezes. A pessoa pode voltar ao trabalho em fase de tratamentos, outras vezes só no fim, quando se sente pronta ou até em momentos enquanto ainda precisa de descansar mais. Trabalhar ou parar é o que cada um precisa para recuperar energia, sem viver sempre na apreensão do próximo exame.

Por isso, expressões como “agora já passou” podem não acompanhar aquilo que está a acontecer. A recuperação beneficia de espaço para reconhecer progressos e dificuldades, sem exigir que tudo se resolva ao mesmo tempo. Infelizmente, não se resolve tudo ao mesmo tempo, nem de uma vez. É preciso tempo, um tempo que demora a passar e a integrar nas nossas vidas. 

O corpo depois dos tratamentos

Os efeitos dos tratamentos variam conforme a intervenção e a pessoa. Podem incluir fadiga, dor, alterações do sono, os muitos sintomas associados à menopausa ou mudanças na vida sexual. Alguns diminuem com o tempo, outros persistem ou surgem mais tarde. Há também quem continue terapêutica durante vários anos, com necessidades próprias de acompanhamento. 

É importante distinguir efeitos secundários, alterações persistentes e sequelas. Um efeito que permanece durante algum tempo não é necessariamente definitivo. A informação clínica deve ajudar a compreender o que pode ser esperado, o que merece avaliação e que respostas estão disponíveis.

No quotidiano, isto pode traduzir-se numa pergunta difícil: “O que estou a sentir faz parte da recuperação ou precisa de ser investigado?”

A resposta não deve ficar inteiramente a cargo de ninguém sozinho. Sintomas novos, persistentes ou preocupantes merecem ser comunicados à equipa de saúde e aconchegados pela rede que cada um tem… família, amigos, vizinhos, colegas de trabalho… toda uma aldeia é precisa (também aqui) para apoiar a recuperação. Escutar o sofrimento emocional e avaliar as questões físicas são dimensões complementares do cuidado e as duas muito, muito necessárias e fundamentais.

Reconhecimento ao espelho

As alterações no cabelo, nas sobrancelhas, nas pestanas, na mama ou na pele podem modificar a forma como a pessoa se reconhece. A perda de cabelo, em particular, pode trazer tristeza, desconforto ou constrangimento, merecendo atenção no acompanhamento. No meu caso, foi um grande golpe à minha identidade, porque o cabelo sempre foi para mim muito mais do que estética. Para mim o cabelo sempre foi símbolo da minha feminilidade e individualidade, pela sua forma, pela sua presença e existência ao longo das minhas décadas de vida! Ao mesmo tempo era a visibilidade exterior do meu carcinoma. Era ali que eu o via cá fora. Muitas mulheres sentem força e orgulho na sua ausência de cabelo, enquanto para outras isto ocupa um lugar menos central e para outras ainda (como eu) a alopecia traz o sentimento de se sair à rua despida, descaracterizada e sem a minha privacidade preservada. Como se uma alopecia decorrente dos tratamentos de quimioterapia não chegasse, consegui juntar uma alopecia areata total, três meses depois de terminar os tratamentos de quimioterapia, num momento onde a recuperação do cabelo ia já bastante avançada. Um grande revés… que me mantém ainda em cuidados.   

Estas (e outras tantas) são mudanças que podem afetar muito a intimidade e a confiança com que nos apresentamos aos outros. Por isso, vale muito a pena perguntar o que cada alteração representa para cada pessoa. Um pequeno sinal de crescimento pode ser vivido como esperança e tanto entusiasmo; a demora pode suscitar novas dúvidas. Desejar reconhecer o próprio rosto e cuidar da aparência merece respeito, mesmo quando existem preocupações médicas de maior gravidade.

“Será que a doença volta?”

Esta pergunta pode permanecer depois dos tratamentos. Uma consulta de vigilância, a espera por resultados ou uma sensação física diferente podem reativar o receio de recidiva. A intensidade e a frequência desse medo variam entre pessoas e ao longo do tempo. 

A vontade de obter certezas é compreensível. Depois de uma experiência que alterou profundamente a vida, pode ser difícil confiar novamente no corpo. Ainda hoje as mensagens trocadas com a incrível radiologista que me fez o diagnóstico, me trouxe muito suporte. A procura de informação pode trazer orientação, mas há perguntas para as quais não é possível oferecer uma garantia absoluta.

Uma preocupação compreensível pode, por vezes, tornar-se um sofrimento que interfere com o sono, o trabalho, as relações ou o acompanhamento médico. Reconhecer essa interferência ajuda a identificar quando é necessário apoio adicional, sem transformar toda a preocupação numa perturbação psicológica. 

O trabalho psicológico pode ajudar a encontrar formas de responder ao medo e à incerteza. O objetivo é permitir que a preocupação ocupe um lugar mais suportável e deixe espaço para outras dimensões da vida. 

O direito a sentir

A linguagem das “guerreiras” e da “luta” dá força a algumas pessoas. Outras podem sentir nela uma exigência de coragem e otimismo permanentes. É importante respeitar ambos os posicionamentos.

Quem vive um cancro deve poder sentir medo, tristeza, irritação, esperança ou alegria sem ter de justificar cada emoção. É possível estar grata pelo cuidado recebido e continuar a sofrer com as consequências da doença. Também é possível ter dias em que o cancro quase não ocupa o pensamento. Lembro-me de muitas vezes me esquecer que tinha ou, hoje em dia, que tive. E o mais paradoxal de tudo é que sempre me senti saudável, porque sempre fui e me vi muito saudável, é como se este diagnóstico não coubesse na minha narrativa de vida. Como é que se passa de ben-u-ron para quimioterapia? Simultaneamente, ainda respiro fundo quando conjugo o verbo “ter” no passado, porque é uma sombra que ainda sinto presente. Talvez sinta sempre. 

Ninguém tem de transformar a sua experiência numa história inspiradora. Pode encontrar novos sentidos, rever prioridades ou desejar recuperar rotinas familiares. Cabe-lhe escolher o que quer partilhar e como quer compreender o que viveu. Ou continuar em busca desse sentido. Eu ainda não compreendi o meu. 

O conhecimento profissional sobre emoções também não elimina a vulnerabilidade. Compreender psicologicamente uma experiência e atravessá-la na própria vida são posições diferentes, que podem dialogar sem se substituir.

O apoio que continua

Para quem está próximo, ajudar começa muitas vezes por perguntar: “Como estás nesta fase?” e dar tempo para ouvir a resposta.

Uma oferta concreta — acompanhar a uma consulta, preparar uma refeição ou assumir uma tarefa — pode ser mais fácil de aceitar do que “diz se precisares de alguma coisa”. Continuar presente depois da fase mais visível dos tratamentos é uma forma muito generosa de cuidado.

Ainda que essa presença deve respeitar a autonomia. Há dias em que a pessoa quer falar da doença e outros em que quer conversar sobre trabalho, filhos, livros ou planos e música. Poder escolher ajuda a preservar uma identidade que inclui muitas coisas além do diagnóstico! No meu caso, sempre quis manter a minha vida o mais possível… o cancro já me tinha tirado tanta coisa, não queria que me tirasse muitas das minhas rotinas, interesses e planos. Conseguir manter tudo o mais próximo da normalidade, devolvia-me essa normalidade. Para mim isso foi mesmo fundamental. Para outras pessoas, isso é inconcebível. Todas as experiências devem ser respeitadas.  

O acompanhamento psicológico pode também oferecer espaço para elaborar mudanças, perdas e receios. As necessidades devem ser avaliadas individualmente: nem todas as pessoas precisam do mesmo apoio, nem no mesmo momento. [4]

Depois dos tratamentos, o cuidado continua

Neste Outubro Rosa, podemos alargar a atenção àquilo que acontece durante e depois de cada etapa do tratamento. A recuperação envolve o corpo, as emoções, as relações e as condições concretas em que a pessoa vive.

Cuidar significa acompanhar estas necessidades, esclarecer dúvidas e ajustar expectativas. Significa reconhecer que celebrar uma etapa concluída é compatível com continuar a precisar de ajuda.

O cuidado continua quando há espaço para a pessoa recuperar, perguntar, sentir e voltar a escolher como quer viver.

Nunca me canso de agradecer. O meu profundo agradecimento a todos os médicos, enfermeiros, amigos, amigas-irmãs e à minha família que têm sido tudo o que tenho precisado!

 

Referências bibliográficas

  1. National Cancer Institute. (2025). Life After Cancer Treatment. https://www.cancer.gov/about-cancer/coping/survivorship/new-normal
  2. Runowicz, C. D., et al. (2016). American Cancer Society/American Society of Clinical Oncology Breast Cancer Survivorship Care Guideline. CA: A Cancer Journal for Clinicians, 66(1), 43–73. https://doi.org/10.3322/caac.21319
  3. National Cancer Institute. (2020). Hair Loss (Alopecia) and Cancer Treatment. https://www.cancer.gov/about-cancer/treatment/side-effects/hair-loss
  4. National Cancer Institute. (s.d.). Adjustment to Cancer: Anxiety and Distress (PDQ®)–Health Professional Version. https://www.cancer.gov/about-cancer/coping/feelings/anxiety-distress-hp-pdq
  5. Butow, P. N., et al. (2017). Randomized Trial of ConquerFear: A Novel, Theoretically Based Psychosocial Intervention for Fear of Cancer Recurrence. Journal of Clinical Oncology, 35(36), 4066–4077. https://doi.org/10.1200/JCO.2017.73.1257
  6. As minhas vivências com um carcinoma invasivo da mama diagnosticado dia 14 de Maio de 2025.

 

 

Vera Lisa Barroso, Psicoterapeuta na Pessoalmente ®

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