Pessoalmente | Nem sempre querer morrer é desejar a morte
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Nem sempre querer morrer é desejar a morte

Sobre multiplicidade interna, neurobiologia e a perda de acesso a alternativas

 

Setembro, mês da prevenção do suicídio

 

Talvez falar de prevenção do suicídio seja, antes de tudo, falar de humanidade.

Falar da nossa capacidade de sofrer, de nos perdermos em nós próprios, de precisarmos uns dos outros.

Falar também da dificuldade que temos em compreender um sofrimento que, muitas vezes, não se vê.

Talvez seja por isso que este tema nos toca tanto, seja pela empatia ou pela raiva, pela identificação ou pela oposição, pelo medo, pela impotência ou até pelas perguntas que se abrem e ficam sem resposta.

É difícil ficar indiferente.

É difícil não reconhecer que quem deprime, quem se desespera e quem, por vezes, acaba por morrer por suicídio são pessoas como nós.

Pode ser alguém com quem falámos ontem.

No trabalho.

Ao telefone.

No supermercado.

Alguém que vimos na televisão, que ouvimos num concerto, que encontramos na escola dos nossos filhos ou até na faculdade.

Esta proximidade é difícil de digerir.

É difícil digerir que, ao nosso lado, possa estar alguém a acreditar que há qualquer coisa em si, na sua vida ou naquilo que sente tão errada, tão indigna ou tão impossível de consertar que precisa de ser eliminada, ou que é a própria pessoa que precisa de desaparecer.

É difícil viver a banalidade de nos termos cruzado na rua com alguém, combinado um café para a semana seguinte e não sabermos que, naquele momento, uma dor invisível já ocupava quase todo o espaço e agenda disponíveis.

E é talvez ainda mais difícil compreender isto:

Nem sempre querer morrer é desejar a morte.

Por vezes, querer morrer é deixar de conseguir ver alternativas para parar um sofrimento quando se acredita já ter tentado tudo para o fazer.

É querer que alguma coisa de muito intensa, extrema e destrutiva pare.

A dor.

O medo.

A vergonha.

O luto.

O cansaço.

A solidão.

A desesperança.

A crença de que não se tem valor.

A sensação de que não se devia existir.

A perda de um sentido de vida.

Quando o sofrimento se torna extremo, aquilo que conseguimos ver pode estreitar-se profundamente.

E a morte pode começar a surgir não necessariamente como aquilo que se deseja, mas como aquilo que parece ter sobrado quando deixamos de conseguir imaginar outras maneiras de fazer alguma coisa parar.

Podemos querer coisas diferentes ao mesmo tempo

Talvez ajude pensarmos na nossa experiência interna como múltipla.

Não somos uma coisa única, coerente e sempre de acordo consigo própria.

Há partes de nós que querem aproximar-se e outras que querem fugir.

Partes que querem confiar e partes que desconfiam.

Partes que querem pedir ajuda e outras que têm vergonha de precisar dela.

Partes que ainda acreditam e outras que já desistiram de acreditar.

Podem também existir partes tão exaustas, assustadas ou desesperadas que começam a acreditar que desaparecer é a única forma de fazer alguma coisa parar.

E talvez seja importante não assumirmos imediatamente que aquilo que essas partes desejam é simplesmente a morte.

Às vezes querem alívio.

Que a agitação pare.

Que a vergonha deixe de ser insuportável.

Que o medo diminua.

Que a solidão pese menos.

Que a dor ocupe menos espaço.

Às vezes, aquilo em nós que pede o fim de alguma coisa pode estar desesperadamente a pedir o fim da dor.

Compreender isto não é romantizar o suicídio.

Não é diminuir a gravidade da ideação suicida nem o perigo que pode representar.

Não é transformar uma situação potencialmente fatal numa metáfora bonita.

É tentar compreender melhor o que está a acontecer para podermos encontrar, e ajudar a encontrar, alternativas àquilo que, naquele momento, parece não as ter.

Porque uma estratégia pode ser extremamente perigosa e, ao mesmo tempo, pode ser compreendida como uma tentativa desesperada de resolver, evitar ou proteger de alguma coisa.

É possível sustentar as duas coisas.

A urgência de proteger uma vida.

E a curiosidade e a empatia pelo sofrimento que levou alguém a acreditar que desaparecer era a única solução disponível.

O sofrimento psicológico também acontece no cérebro e no corpo

Quando falamos de sofrimento psicológico extremo, estamos também a falar de fatores biológicos, de processos fisiológicos e de vulnerabilidades genéticas.

Não estamos apenas a falar de pensamentos, emoções, crenças ou impulsos.

Estamos a falar de um organismo inteiro.

E de um cérebro.

Um órgão extraordinariamente complexo, envolvido na nossa capacidade de sentir prazer, encontrar motivação, regular o stress e as emoções, tomar decisões, avaliar possibilidades, antecipar consequências e imaginar o futuro.

A investigação sobre comportamento suicida tem encontrado associações e diferenças em vários sistemas e processos neurobiológicos relacionados com estas funções.

Mas é importante não simplificar.

Não existe um único “cérebro suicida”.

Não existe uma alteração biológica única que explique todas as pessoas ou todos os suicídios.

E não existe atualmente um exame que permita prever com certeza quem irá morrer por suicídio.

Existem profissionais preparados para avaliar clinicamente o risco, os fatores de vulnerabilidade e de proteção e as necessidades de segurança, sabendo que nenhuma avaliação permite prever com certeza o comportamento de uma pessoa.

Mas a neurobiologia de uma pessoa nunca substitui a sua história.

As suas relações.

O trauma.

As perdas.

As condições sociais.

As experiências de rejeição.

A sua saúde física e mental.

A sua história de vida.

O sofrimento suicida é complexo.

E talvez reconhecer essa complexidade nos ajude a afastar-nos de explicações demasiado simples para uma experiência que raramente o é.

Saber que existem alternativas não é o mesmo que conseguir aceder-lhes

Em estados de sofrimento psicológico extremo, não é apenas aquilo que pensamos que pode mudar.

Pode mudar também aquilo a que conseguimos aceder emocionalmente.

Uma pessoa pode reconhecer cognitivamente que existem vínculos, possibilidades, tratamentos ou razões para continuar e, ainda assim, não conseguir senti-los como opções disponíveis naquele momento.

Pode saber que já esteve melhor e não conseguir imaginar-se novamente melhor.

Pode reconhecer que existem alternativas e não conseguir encontrá-las dentro de si.

Isto não é fraqueza.

Não é ingratidão.

Não é falta de esforço.

E não significa necessariamente que as pessoas à sua volta tenham feito pouco.

Significa que, naquele momento, a capacidade de imaginar futuro, mudança e outras possibilidades pode estar profundamente comprometida.

Há uma diferença enorme entre uma alternativa não existir e nós, naquele momento, não conseguirmos aceder-lhe.

Talvez seja precisamente essa diferença que precisamos de compreender melhor quando falamos de suicídio.

Um suicídio não tem uma única causa

Quando acontece um suicídio, é muito humano procurar uma explicação.

Uma relação.

Um diagnóstico.

Uma perda.

Uma dificuldade económica.

Um acontecimento recente.

Mas o suicídio não se explica habitualmente por uma única causa.

O sofrimento suicida nasce de uma interação complexa entre fatores psicológicos, biológicos, relacionais, sociais e circunstanciais.

Podem existir acontecimentos que precipitaram uma crise.

Mas aquilo que aconteceu por último não explica necessariamente tudo aquilo que aconteceu antes.

E esta complexidade tem uma consequência importante.

Dizer que o suicídio pode ser prevenido não significa dizer que cada morte poderia ter sido prevista ou impedida por alguém próximo.

Prevenção não é o mesmo que controlo.

Podemos aprender a reconhecer melhor o sofrimento, a perguntar, a procurar ajuda e a falar sobre suicídio sem transformar esse conhecimento numa acusação retrospectiva.

Para isso, precisamos de informação.

Precisamos de literacia.

Precisamos de falar sobre este tema.

E precisamos de aprender a cuidar melhor uns dos outros sem transformar o amor numa obrigação de conseguir controlar o desfecho da vida de outra pessoa.

Talvez prevenir seja criar mais alternativas

Talvez seja isso que a prevenção nos pede.

Criar alternativas.

Mais ajuda.

Mais apoio.

Mais acesso a cuidados de saúde mental.

Mais profissionais preparados.

Mais respostas em situação de crise.

Menos vergonha em dizer que não se está bem.

Menos estigma.

Mais literacia.

Mais informação.

Mais apoio às famílias e aos amigos.

Mais atenção ao trauma, à pobreza, à violência, à solidão e às circunstâncias de vida que podem contribuir para que alguém vá ficando progressivamente sem espaço.

Mais atenção também às condições sociais e políticas que interferem com a forma como as pessoas vivem, adoecem e conseguem, ou não, aceder a ajuda.

Mais lugares onde seja possível dizer:

“Estou a pensar em morrer.”

E encontrar do outro lado alguém disponível para perguntar:

“Fala-me sobre isso. O que é que se tornou tão insuportável?”

Porque, paradoxalmente, e voltando ao mais importante:

Nem sempre querer morrer é desejar a morte.

Pode ser uma parte de nós, exausta e desesperada, que deixou de encontrar outra maneira de fazer a dor parar.

E talvez seja precisamente aí que precisamos de chegar.

Não para contrariar.

Não para discutir.

Não para dizer que está errada.

Mas para compreender.

O que é que aconteceu?

O que é que está a acontecer?

O que é que se tornou tão insuportável para que a morte começasse a parecer a única alternativa?

E que outras possibilidades podemos ajudar a tornar acessíveis?

 

Se este tema está ou esteve próximo de si

Se está a pensar em suicídio, sente que pode fazer mal a si próprio ou que pode não conseguir manter-se em segurança, procure apoio agora.

1411 | Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico

Gratuita e disponível 24 horas por dia.

SNS 24 | 808 24 24 24

Em situação de perigo imediato | 112

 

Se perdeu alguém por suicídio e este tema despertou sofrimento intenso ou pensamentos relacionados com a própria morte, também merece apoio.

 


Margarida Coimbra Marques, Psicoterapeuta na Pessoalmente ®

 Esperemos que tenha gostado e que o tema possa servir reflexões, bem como explorações internas/ externas! Partilhe com (ou identifique no texto) todas as pessoas a quem sinta fazer sentido esta leitura… Comente ou deixe-nos sugestões de tópicos relacionados. Todos os contributos muito bem vindos!