26 Sep Não precisa de resolver a sua vida inteira hoje
Sobre desespero, esperança e a possibilidade de atravessar o presente sem ter de resolver o resto da vida.
Setembro, mês da prevenção do suicídio
Se está a pensar em suicídio, sente que pode fazer mal a si próprio ou que pode não conseguir manter-se em segurança, procure apoio agora.
1411 | Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico
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Se está a ler este texto e sente que está a deixar de acreditar que existem alternativas, talvez eu não precise de lhe dizer que tem uma vida inteira pela frente.
Talvez não precise de ouvir, ou que eu lhe lembre, as pessoas que gostam de si.
Os filhos.
Os amigos.
A família.
Ou que lhe tente dar esperança através de tudo aquilo que ainda pode acontecer.
Talvez essas coisas continuem a ser verdadeiras e, ainda assim, neste momento, as sinta demasiado longe.
Talvez algumas delas nem sequer sejam verdadeiras para si e habite, neste momento, num lugar de solidão, de desespero, de isolamento ou de desamparo.
E tentar agora contrariar tudo isto, enumerando razões pelas quais deveria sentir-se de outra maneira, pode tornar-se apenas mais um peso sobre uma dor que já pesa demasiado.
Por isso, gostava de começar consigo noutro lugar.
Não na sua vida inteira.
Não em tudo aquilo que precisa de mudar.
Não na forma como gostaria de se sentir.
Podemos começar aqui.
Agora.
Neste momento.
Como seria se não tivesse de atravessar e carregar tudo isto sozinho agora?
Não porque lhe esteja a prometer que vai ficar tudo bem.
Não porque tenha de acreditar imediatamente que tudo vai mudar.
Mas como seria se, por agora, pudéssemos ficar apenas com essa possibilidade juntos?
Mesmo que ínfima.
Mesmo que frágil.
A possibilidade de não carregar esse peso todo sozinho e talvez um dia, que esse peso pudesse diminuir?
Talvez alguma coisa precise apenas de parar
Gostava que pudesse sentir-se compreendido também nisto.
Às vezes, o sofrimento pode tornar-se tão intenso que começa a ocupar tudo.
Suga.
Invade.
Cega.
Estreita o mundo até parecer que aquilo que estamos a sentir é tudo aquilo que existe e tudo aquilo que alguma vez existirá.
E, por isso, consigo compreender que pensar em morrer possa, por vezes, significar sentir que já não se aguenta mais.
Que alguma coisa precisa de parar.
A dor.
O medo.
A vergonha.
O cansaço.
A solidão.
A sensação de não ter valor.
A ideia de que já tentou tudo.
A crença de que não existe outra saída.
Às vezes, aquilo que pede um fim, um término, um encerramento, pode estar desesperadamente a pedir que alguma coisa que se tornou insuportável pare.
Que a dor pare.
Que o medo pare.
Que a solidão pare.
Que aquilo que se tornou tão extremo deixe, pelo menos, de ocupar todo o espaço.
E talvez, neste momento, não seja preciso compreender tudo isto completamente.
Talvez seja apenas preciso não ter de o carregar sozinho.
Aquilo em que acredita e se vê no escuro pode não ser a única verdade
Talvez, neste momento, lhe pareça absolutamente verdade que não merece viver.
Que é demasiado.
Que não é suficiente.
Que estragou tudo.
Que já não há saída.
Que ninguém o consegue ajudar.
Que não aguenta mais.
E eu não vou tentar simplesmente dizer-lhe, ou convencê-lo, de que esta não é a sua verdade agora.
Porque sei que tudo isto pode ser profundamente verdadeiro dentro de si neste momento.
Mas aquilo que sentimos e acreditamos quando estamos no escuro, aquilo que conseguimos ver a partir desse lugar, pode não ser a única realidade possível.
Não conseguir imaginar uma possibilidade diferente não significa necessariamente que ela não exista.
Às vezes, pode ser preciso ter alguém que consiga ver por nós aquilo que, naquele momento, já não estamos a conseguir ver.
Alguém que nos empreste os seus olhos.
A sua esperança.
A sua presença.
A sua companhia.
Que seja uma mão no escuro até conseguirmos voltar a encontrar qualquer coisa nossa.
Não precisa de resolver a vida inteira hoje
Talvez isto hoje lhe pareça impossível.
E isso também é compreensível.
Não precisa de imaginar uma vida diferente.
Talvez nem precise de imaginar amanhã.
Mas como seria se pudesse, pelo menos, doer menos?
O suficiente para conseguir respirar dentro da dor
O suficiente para existir um pequeno espaço entre si e o desespero.
O suficiente para atravessar este momento sem precisar de resolver hoje o resto da sua vida.
É só isto.
Não precisa de resolver a vida inteira hoje e agora.
Talvez seja apenas esta hora.
Depois esta noite.
Depois amanhã.
Depois outro dia.
Grande parte da ajuda psicológica nestes momentos pode começar precisamente aí.
Entre este completo encerramento e a possibilidade de uma pequena abertura.
Entre a opressão e um rasgo de liberdade.
Entre o momento em que já não conseguimos imaginar nenhuma saída e aquele espaço, por vezes minúsculo e muito frágil, em que conseguimos sentir, talvez com a ajuda de alguém:
“Talvez valha a pena viver.”
E, quem sabe, um dia:
“Talvez eu mereça sentir-me melhor”
O sofrimento pode transformar-se.
Nem sempre transformar-se significa desaparecer.
Talvez signifique, primeiro, doer menos.
Ter mais espaço.
Conseguir respirar.
Conseguir dormir uma noite.
Conseguir pedir ajuda.
Conseguir atravessar mais um dia.
E depois outro.
Até a esperança pode assustar
Paradoxalmente, sei que convidar alguém a voltar a acreditar, mesmo que seja só um bocadinho, também pode ser assustador.
Porque ter esperança pode significar correr novamente o risco de nos desiludirmos.
De nos magoarmos.
De procurar ajuda e não encontrar imediatamente aquilo de que precisamos.
De tentar outra vez e sentir que nada mudou tão depressa quanto gostaríamos.
E isso também pode ser difícil.
Por isso, não lhe vou pedir que tenha esperança.
Não precisa de a fabricar.
Não precisa de se convencer de que tudo vai ficar bem.
Talvez, durante algum tempo, alguém possa simplesmente guardá-la por si.
Seguramente eu sustento a sempre, não só como alguém que já teve no escuro e voltou a ver a claridade com ajuda, mas também como alguém que estende a mão diariamente e vê tanta gente a conseguir atravessar os caminhos mais pantanosos da mente até chegar a outro lugar diferente.
Acredito que há muito mais em si/em nós do que aquilo que conseguimos ver enquanto a dor ocupa tudo.
Há coisas que talvez, neste momento, estejam inacessíveis.
Possibilidades que não consegue imaginar.
Não precisa de as encontrar todas hoje.
Se este texto é para si
Talvez não precise de conseguir sair hoje completamente do lugar onde está.
Não precisa já de acreditar que vai ficar tudo bem.
Não precisa de encontrar razões suficientes para uma vida inteira.
Não precisa de resolver todos os seus problemas.
Não precisa sequer de saber como será amanhã.
Mas talvez possa aceitar uma coisa.
Alguma ajuda para não estar sozinho no escuro.
Se conseguir, diga a alguém que não está bem.
Não precisa de conseguir explicar tudo de uma vez.
Pode começar apenas por dizer:
“Preciso que fiques comigo.”
Ou:
“Não estou a conseguir ficar sozinho com isto.”
Ou simplesmente:
“Não me sinto nada bem.”
Pode ser uma frase pequena.
O suficiente para abrir uma porta.
Mesmo que isto lhe traga vergonha.
Mesmo que ache que ninguém vai compreender.
Mesmo que não queira preocupar ninguém.
Mesmo que alguma coisa dentro de si lhe diga que não vale a pena.
Que nada vai mudar.
Mesmo que, neste momento, não consiga acreditar que alguém o possa ajudar.
Talvez possa encontrar um amigo.
Alguém da família.
Alguém que o ajude a encontrar um profissional.
Uma linha de apoio.
Alguém que consiga ficar consigo enquanto a dor ocupa demasiado espaço.
Não para o obrigar a acreditar.
Não para lhe dizer que vai ficar tudo bem.
Não para lhe exigir que tenha esperança ou que encontre alguma coisa a que se agarrar.
Mas talvez, nem que seja por um bocadinho, alguém que consiga guardar alguma esperança por si.
Que fique.
Que escute.
Que o acompanhe enquanto atravessa este momento sem ter de resolver hoje o resto da sua vida.
Ninguém merece viver no sofrimento sozinho.
Se está em risco agora
Se está a pensar em fazer mal a si próprio, sente que pode perder o controlo ou que não consegue garantir a sua segurança, por favor, não fique sozinho com isto.
Procure uma pessoa que possa estar fisicamente consigo e peça ajuda agora.
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Em situação de perigo imediato | 112
Pode não conseguir imaginar hoje que a sua experiência alguma vez será diferente.
Pode até ser assustador deixar entrar alguma esperança, com medo de uma nova desilusão.
Seja o que for que estiver a sentir, não precisa de acreditar sozinho numa possibilidade diferente.
Por agora, talvez baste permitir que alguém fique consigo enquanto se sente assim.
Margarida Coimbra Marques, Psicoterapeuta na Pessoalmente ®
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