Pessoalmente | Vergonha: as dores de me sentir uma fraude inaceitável
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Vergonha: as dores de me sentir uma fraude inaceitável

Enjoar, vontade de desaparecer, sentir que se é estúpido, diferente, único, indesejado, desadequado ou uma fraude… quais os movimentos da vergonha dentro de nós e na forma como nos relacionamos externamente com os outros? Quais as motivações da vergonha, bem como as suas consequências? A vergonha intencional tem uma mensagem julgadora que é sentida como muito pessoal e verdadeira para quem a recebe, como se algo muito grave tivesse sido revelado: a imperfeição faz-nos sentir que existe algo de errado/ defeituoso e inaceitável em nós, que somos “casos únicos” no mundo e por isso não pertencemos realmente aos grupos que nos rodeiam.

As dores de sentir que se é uma fraude inaceitável podem ser tão tóxicas que vulgarmente precipitam e emaranham numa série de outros sintomas ou comportamentos. Na verdade, frequentemente, com ou sem consciência, procuramos psicoterapia para explorar sintomas e comportamentos associados a vergonha… dependências, depressão, ansiedade, agressividade estão entre alguns dos mais comuns.  

A verdade é que a vergonha pode “ocupar um espaço” considerável dentro de nós: a crença de que estamos a ser julgados, que os nossos defeitos pessoais estão a ser expostos e que somos de forma global “maus” produz uma experiência intensa que se estende desde sintomas físicos, a pensamentos e reações emocionais. Bloqueamos num olhar extraordinariamente negativo e auto-dirigido sobre valor pessoal e competências.

 

Mas quando (e como) nasce a vergonha?

Todos nós nascemos com a capacidade de sentir vergonha, mas é na interação com os outros e na experiência relacional que esta dinâmica (passiva-interpessoal e/ou ativa- auto-gerada-e-dirigida) se pode instalar e reinar.

A negligência, abandono, o abuso e maus tratos físicos, verbais e emocionais estão na base desta poderosa “sentença pessoal”, capaz de incorporar acontecimentos externos em realidades intrínsecas. É por isso que uma vítima de vergonha se torna facilmente um agente ativo que envergonha – que envergonha nas relações interpessoais (reagindo e tentando regular a sua vergonha com raiva dirigida ao exterior) ou que envergonha internamente (atuando proativamente na regulação da vergonha através de raiva auto-dirigida). Por outro lado, como as nossas dimensões de crítica interna e auto-ataque intensificam ainda mais a vergonha, acaba por ser estimulada uma ampla variedade de respostas que envolvem por um lado o evitamento, dissociação, resistência ou por outro comportamentos de maior impulso ou risco, como as dependências, perturbações alimentares, auto-mutilação, agressividade, ou até mesmo suicídio.  

Simplificando, comportamentos extremos podem ativar em nós dimensões mais críticas e punitivas, dimensões críticas e punitivas exercem controlo envergonhando internamente, mais vergonha estimula comportamentos extremos… e assim sucessivamente.

 

Como se transforma este ciclo que pode ser tão exaustivo e turbulento dentro de nós? 

Criar distanciamento entre aquilo que foi/é externo versus aquilo que é nosso torna-se o primeiro grande objetivo de um processo terapêutico. A feroz voz dos nossos críticos internos podem per si despertar medo e vergonha dentro de nós que, por sua vez, pode despertar respostas compensatórias ou reativas. Tomemos um dos exemplos possíveis para ilustrar estes ciclos: imagine uma voz interna crítica que aponta permanentemente falhas, erros e o compara de forma negativa relativamente aos outros -> isto fá-lo sentir frustração e impotência -> uma outra camada do seu sistema procura proporcionar-lhe algum alívio desta frustração e ajudá-lo a esquecer estas “sensações desagradáveis” -> de repente dá por si com uma tablete de chocolate nas mãos e come o primeiro quadrado, mas quando volta a olhar… já terminou o chocolate -> comer uma tablete inteira de chocolate sem qualquer controlo começa a gerar culpa e fá-lo sentir vergonhoso e inútil -> surge ansiedade -> a inicial voz crítica volta e utiliza o ocorrido para voltar a julgar e envergonhar. O ciclo retoma… Desta forma, torna-se fundamental mapear as diferentes camadas de proteção presentes no sistema de cada indivíduo; sendo que o processo de exploração das diferentes camadas até à lesão original começa, muitas vezes, pela mais recente, ou mais visível.

Conseguirmos alguma diferenciação entre nós e as dimensões que fazem parte do nosso sistema permite-nos uma visão amplamente mais clara e abrangente sobre o que afinal está a acontecer dentro e fora de nós. A partir daqui inicia-se o desbravamento de trilhos internos que nos levarão a momentos de vida, em que avaliações vergonhosas foram absorvidas como identidade (sou mau, tenho algo de errado, não sou gostável por isso…). É nesta fase que se inicia o processo de transformação, onde sentir compaixão pela mesma realidade que outrora nos fez sentir vergonha se torna a distância mais curta entre um ciclo doloroso e um espaço de liberdade.

A vergonha pode gerar ciclos muito nocivos de escolhas, crenças, emoções, comportamentos e interações… tanto para nós próprios, como para quem se torna um alvo capaz de desviar a nossa vergonha. Oferecer curiosidade, um espaço e uma oportunidade para conhecer a sua origem, a sua história e as suas necessidades é a melhor receita para as dores de nos sentirmos uma fraude inaceitável.

 

Vera Lisa Barroso, Pessoalmente ®

Esperemos que tenha gostado e que o tema possa servir curiosas reflexões, bem como explorações internas/ externas!

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